Quando a pátria dança conga

A cantora Gretchen, em recente viagem à Europa, resolveu ilustrar os seus bons momentos no Velho Mundo por meio da seguinte legenda:

gretchenpolemica

“Da minha janela eu vejo a beleza da Europa, e você continua vendo o morro da sua favela…”

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Mal sabemos por onde começar a nossa análise, mas temos certeza absoluta de que é em uma hora dessas que ensaios como “Da nacionalidade da literatura brasileira”, “Instinto de nacionalidade” e “Nacional por subtração” ainda têm lá a sua valia.

Não que o amadorismo nacionalista de “Canção do Exílio” já não tenha sido superado, longe disso: mais fácil é perceber que “Conga! Conga! Conga!” pode ser um dúbio estado de espírito muito mais nocivo do que ser “morro da sua favela”.

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Não é falta de bom senso: é falta de desrecalque localista mesmo.

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Agora resta a dúvida: quem se sentiu mais, digamos, ofendido pelo comentário da Gretchen: Santiago Nunes Ribeiro? Machado de Assis?  Roberto Schwarz? Antonio Candido? Carlos Galhardo?

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Essa tal de imparcialidade

Lição rápida de como se fazer jornalismo na internet respeitando os traços prototípicos de cada gênero textual: quer manter a imparcialidade do seu texto em prol da objetividade e da pretensa confiabilidade que ela confere?

Escreva uma notícia e publique na seção de Economia do seu site:

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Mas quer deixar sutis marcas de subjetividade e se valer de o quanto um pouco de ironia na vida pode dar um colorido todo especial para um mesmo fato?

Escreva um artigo de opinião travestido de notícia relevante e publique no seu blog:

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Afinal, entre um PIB e um pibinho, (ou melhor ainda: entre discurso otimista e o gogó da presidente) há um certo eufemismo que preferimos chamar de “seleção vocabular perigosamente argumentativa”. Zilda Gaspar Aquino e Ingedore Koch que não nos deixem mentir!

 

Na dúvida, continue nos lendo: não há nada que aumente o respaldo e a confiança como escrever no WordPress.

 

Da alteridade

ou “como identificar um Bolsonaro em potencial através de propostas sócio-pedagógicas em sala de aula”:

Eu não sou contra nem a favor, muito pelo contrário (sic), mas que algumas pessoas deveriam morrer para sempre da vida eterna (sic)…

Teste de Rorschach

Para um manhã de terça-feira, diga sinceramente: o que você vê na imagem abaixo?

I. uma metáfora sutil sobre o novo salário mínimo;

II. um reestabelecimento do ethos prévio da mulher, mostrando que, ainda que presidenta, lugar de mulher é na cozinha;

III. uma forma de investigar se o Louro José está envolvido com outras aves, como os tucanos, por exemplo.

IV. uma prévia de como será o mês de março no programa Mais Você: hoje, a presidenta faz omelete; na semana que vem, será Erenice Guerra e uma surpreendente receita de pizza.

V. um pretexto consideravelmente negativo para a revista Veja finalmente ter algo para depreciar Dilma Rousseff.

VI. a prova cabal de que a História quer fazer a primeira mulher presidente do Brasil ser sempre a coadjuvante: primeiro, no dia da posse, os olhares se voltam para a esposa de Michel Temer, e não para Dilma. Agora, ela vai a um programa de TV e quem aparece nos trending topics do twitter não é a convidada, mas a apresentadora.

Vejamos se Rorschach realmente nunca falha.

A interação e suas falhas

Quem acessa a edição virtual do jornal Estado de Minas e, para o bem da conversação e da interação entre aquele que escreve e aqueles que lêem, tenta postar algum comentário sobre qualquer notícia lida é obrigado a se deparar com, digamos, um redirecionador de footing:

Afinal, falta de educação em interações, mesmo que virtuais, ainda é bastante reprovável (a menos que você seja Catherine Kerbrat-Orecchioni, mas isso já é uma outra história).

O antiarco e a antilira

Quando Walter Benjamin afirmou que o jornal matou a literatura, acreditem, ele sabia muito bem o que estava falando. A prova definitiva? A reportagem do jornalista esportivo Régis Rösing sobre o retorno de Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo ao futebol brasileiro – ou, como chamamos carinhosamente, “como causar um infarto em Myriam Ávila em 10:57”:

A síntese de arranjos poéticos:
• emoção à flor da pele;
• como um leão enjaulado que se liberta;
• um lugar ao flash;
• soldado que presta continência ao alto comando do coração e é promovido a capitão, a capelão da nação;
• carinho até pro ar;
• tocou até piano – para depois tocar terror e desafinar os marcadores;
• o camisa 100 ficou sem palavras – infecundo jogo lúdico com as palavras que fez o já outrora citado padre Antonio Vieira ter uma síncope;
• o céu é o limite;
• em 04:16 – a prova de que clarividência não é artifício poético;
• ri, ri, rivaldo voltou – ponto. Basta.

Em suma: Régis Rösing cruzou o eixo sintagmático com o eixo paradigmático e atirou para todos os lados.

O saldo? Re-matou Roman Jakobson, Ezra Pound, Octávio Paz, padre Antônio Vieira e Walter Benjamin;de quebra fez Joseph Pulitzer se retorcer no túmulo, além de Freddy Mercury, que não gostou de ouvir como uma de suas músicas foi absurdamente associada à notícia – assim disseram os médiuns consultados.
Quase matou Myriam Ávila, Décio Pignatari, Antônio Cândido e Luiz Costa Lima.
Encheu de orgulho Pedro Bial.