Essa tal de imparcialidade

Lição rápida de como se fazer jornalismo na internet respeitando os traços prototípicos de cada gênero textual: quer manter a imparcialidade do seu texto em prol da objetividade e da pretensa confiabilidade que ela confere?

Escreva uma notícia e publique na seção de Economia do seu site:

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Mas quer deixar sutis marcas de subjetividade e se valer de o quanto um pouco de ironia na vida pode dar um colorido todo especial para um mesmo fato?

Escreva um artigo de opinião travestido de notícia relevante e publique no seu blog:

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Afinal, entre um PIB e um pibinho, (ou melhor ainda: entre discurso otimista e o gogó da presidente) há um certo eufemismo que preferimos chamar de “seleção vocabular perigosamente argumentativa”. Zilda Gaspar Aquino e Ingedore Koch que não nos deixem mentir!

 

Na dúvida, continue nos lendo: não há nada que aumente o respaldo e a confiança como escrever no WordPress.

 

#putafaltadenoçãodegeografia

Responda rápido: em qual Estado brasileiro está localizada a cidade de Cuiabá?

A resposta é: depende – se você for o baterista da banda Restart, ou Cuiabá realmente fica no Mato Grosso do Sul ou você é dono de um nível de ironia com o seu público tão grande que ninguém percebeu a mordacidade do seu comentário.

 

Considerando o retrospecto do baterista em questão, ficamos com a primeira opção. E você achando que o desmembramento do Estado do Pará era uma questão polêmica… tsc, tsc.

Essa tal de norma culta

A gangue pasqualecipronetista e todos os demais puristas de plantão talvez nunca estiveram tão alvoroçados. O simples fato de ouvirem frases como “os livro ilustrado mais interessante estão emprestado” ou “nós pega o peixe”, presentes no livro didático Por uma vida melhor, do MEC, parece justificar toda uma sucessão de críticas à “equivocada” proposta. Bem, só parece.

Um levantamento rápido das críticas feitas pelos guardiões da última flor do Lácio inculta e bela prova, na verdade, uma posição hermética e acadêmica demais sobre o uso da língua portuguesa. Não é difícil encontrar termos qualitativos  como “forma errada“, “modo correto de se expressar” e “aprender certo“. Afirmações desse tipo enquadram equivocadamente o caráter dinâmico da língua e sua flexibilidade de se articular em diferentes contextos em um jogo de “certo ou errado”, de “uso bom” e “uso ruim”.

É evidente que não se deve sonegar a qualquer aluno o direito de aprender as construções e regras formais da língua portuguesa, uma vez que essas são a vertente empregada nas principais áreas da esfera social, sobretudo na modalidade escrita. Contudo, com a mesma ênfase que se ensina o modo formal e gramaticalmente esperado da língua, deve-se ensinar que não há certo ou errado nela, mas sim construções adequadas e inadequadas para cada situação e para cada interlocutor.

Estigmatizar as expressões menos formais da língua continuará parecendo uma tentativa de elitizar cada vez mais a norma culta e de torná-la instrumento de prestígio e de legitimação daqueles que a vomitam empregam – embora muita gente ainda confie no poder que essa tal de norma culta tem, não é mesmo desembargador Elpídio Donizetti Nunes?

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“O que mais gosto dela é o seu texto na língua pátria, porque, às vezes, é difícil achar servidores com essa condição”. Culpa da norma culta.

Da alteridade

ou “como identificar um Bolsonaro em potencial através de propostas sócio-pedagógicas em sala de aula”:

Eu não sou contra nem a favor, muito pelo contrário (sic), mas que algumas pessoas deveriam morrer para sempre da vida eterna (sic)…

Errata – ou Do homicídio doloso II

Uma sutil advertência aos calouros que chegam à Faculdade de Letras da UFMG: não acreditem em tudo que os veteranos falam. Não existe monstro no milharal, não existe mais uma escada que não leva para lugar nenhum,

_______________ah, e Noam Chomsky não morreu!

Rancor com a Teoria Gerativa e com o Programa Minimalista dá nisso. Se não for predileção pelo Saussure, deve ser falha no desempenho – em todos os sentidos.

Aula de Didática

Como ensinar matemática e, ao mesmo tempo, promover um debate sobre tráfico de drogas e criminalidade?

1) Zaroio tem um fuzil AK-47 com carregador de 80 balas. Em cada rajada ele gasta 13 balas. Quantas rajadas poderá disparar?

2) Biroska comprou 10 gramas de coca pura que misturou com bicarbonato na proporção de 4 partes de pó para 6 de bicarbonato. A seguir, vendeu 6 gramas desta mistura ao Cascudo por R$ 150 e 16 gramas ao Chinfra por R$ 40 a grama. Então:

a) Quem é que comprou mais barato? Cascudo ou Chinfra?
b) Quantos gramas de mistura o Biroska preparou?
c) Quanto de cocaína contém essa mistura?

3) Jamanta comprou 200 gramas de heroína que pretende revender com um lucro de 20% graças ao “batismo” com pó de giz. Qual é a quantidade de giz que ele terá que colocar?

4) Rojão é cafetão na Praça Mauá e tem 3 prostitutas que trabalham para ele. Cada uma cobra R$ 35, dos quais R$ 20 são entregues a Rojão. Quantos clientes terá que atender cada prostituta para poder comprar a sua dose diária de crack no valor de R$ 150?

5) Chaveta recebe R$ 500 por cada BMW roubado, R$ 125 por carro japonês e R$ 250 por 4X4. Como já puxou 2 BMW e 3 4X4, quantos carros japoneses terá que roubar para receber R$ 2.000?

6) Pipoco está na prisão por assassinato pelo qual recebeu o equivalente a R$ 5.000. A mulher dele gasta R$ 50,00 por mês. Quanto dinheiro vai restar quando Pipoco sair da prisão daqui a 4 anos?

O gabarito você encontra aqui.

Difícil é definir se o mérito didático está na apresentação da realidade aos alunos – ainda que em uma prova de matemática, valha-me Deus! – ou se na irrepreensível familiaridade do professor com, digamos, codinomes do tráfico: nosso palpite é de que Rojão seja o dono da boca e que Biroska seja o aviãozinho.

E qual é o malogro da Escola Tecnicista nessa história? 50% da nota do aluno é obtida mediante a resolução correta dos problemas propostos; a outra metade, só se ele conseguir fazer um papelote.

Teste de Rorschach

Para um manhã de terça-feira, diga sinceramente: o que você vê na imagem abaixo?

I. uma metáfora sutil sobre o novo salário mínimo;

II. um reestabelecimento do ethos prévio da mulher, mostrando que, ainda que presidenta, lugar de mulher é na cozinha;

III. uma forma de investigar se o Louro José está envolvido com outras aves, como os tucanos, por exemplo.

IV. uma prévia de como será o mês de março no programa Mais Você: hoje, a presidenta faz omelete; na semana que vem, será Erenice Guerra e uma surpreendente receita de pizza.

V. um pretexto consideravelmente negativo para a revista Veja finalmente ter algo para depreciar Dilma Rousseff.

VI. a prova cabal de que a História quer fazer a primeira mulher presidente do Brasil ser sempre a coadjuvante: primeiro, no dia da posse, os olhares se voltam para a esposa de Michel Temer, e não para Dilma. Agora, ela vai a um programa de TV e quem aparece nos trending topics do twitter não é a convidada, mas a apresentadora.

Vejamos se Rorschach realmente nunca falha.