Dos hábitos e suas expressões idiomáticas

Um bom tradutor deve sempre considerar que certas questões culturais às vezes norteiam o trabalho tradutório. Por exemplo, a expressão idiomática, vulgo clichê-político, “acabar em pizza”, pode ser traduzida por outras metáforas gastronômicas (igualmente indigestas):

Sorvete
como “acabar em sorvete”, por exemplo.

Quando a pátria dança conga

A cantora Gretchen, em recente viagem à Europa, resolveu ilustrar os seus bons momentos no Velho Mundo por meio da seguinte legenda:

gretchenpolemica

“Da minha janela eu vejo a beleza da Europa, e você continua vendo o morro da sua favela…”

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Mal sabemos por onde começar a nossa análise, mas temos certeza absoluta de que é em uma hora dessas que ensaios como “Da nacionalidade da literatura brasileira”, “Instinto de nacionalidade” e “Nacional por subtração” ainda têm lá a sua valia.

Não que o amadorismo nacionalista de “Canção do Exílio” já não tenha sido superado, longe disso: mais fácil é perceber que “Conga! Conga! Conga!” pode ser um dúbio estado de espírito muito mais nocivo do que ser “morro da sua favela”.

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Não é falta de bom senso: é falta de desrecalque localista mesmo.

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Agora resta a dúvida: quem se sentiu mais, digamos, ofendido pelo comentário da Gretchen: Santiago Nunes Ribeiro? Machado de Assis?  Roberto Schwarz? Antonio Candido? Carlos Galhardo?

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(Des)Concursos

Saiu o edital para o Suplemento Literário de Minas Gerais!  http://br4.in/GQea7

Dica dos doutores e doutoras da Faculdade de Letras da UFMG.

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Mãe Natureza X-9

Em relatório divulgado no mês passado, o Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais  apontou indícios de graves irregularidades no processo de licitação pública para a realização do projeto de engenharia e arquitetura do estádio Mineirão, voltado para a Copa do Mundo de 2014.

No projeto básico do estádio (por sinal, até o momento, o mais caro do Brasil), foram constatadas irregularidades como ausência de licitação pública, pagamentos por serviços não executados, desvio de objeto, jogo de planilha (esquema que permite aditivos de contratos sem necessidade) e superfaturamento. Em cifras, toda essa falta de vergonha na cara já custa R$ 29.378.102,19.

O que mais causa espanto, na verdade, foi a necessidade de se esperar chegar a fatos e números tão expressivos para se cogitar alguma ação ou medida que verificasse a quantas anda o projeto para o Mineirão. Diga-se de passagem que, antes mesmo do início das obras, até a Mãe Natureza já sabia onde estava o pote de ouro dos humanos:

“É só seguir a trilha até o fim do arco-íris!”

Fábulas da pós-modernidade: duvidar, quem há de?

 

Encômio das Virtudes – versão Savassi

A prudência, a coragem, a temperança e a justiça: as quatro virtudes cardeais da Antiguidade e da Idade Média. Admoestadas por Platão, louvadas pelos estóicos e introjetadas no pensamento cristão via santo Ambrósio, santo Agostinho e santo Tomás de Aquino, as virtudes não foram abaladas nem sequer pela pós-modernidade – não a ponto de serem aniquiladas, isso é fato, mas sofrendo uma ou outra, digamos, adaptação aos paradigmas dos novos tempos e costumes.

Já que a cultura letrada está para o séc. XVIII assim como a Savassi está para o séc. XXI, porque não olhar para essa peculiar região de Bele Horizonte e encontrar nela o pleno exercício das virtudes clássicas?

A Prudência.

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A Coragem.

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A Temperança.

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A Justiça.

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Quem precisa de um Cesare Ripa quando sem tem uma boa máquina fotográfica e se está no lugar certo, na hora certa e com o ícone a pessoa certa? Ripa até poderia estar pobre atualmente, mas se o sr. Gregório de Matos e Guerra estivesse vivo…

Essa tal de norma culta

A gangue pasqualecipronetista e todos os demais puristas de plantão talvez nunca estiveram tão alvoroçados. O simples fato de ouvirem frases como “os livro ilustrado mais interessante estão emprestado” ou “nós pega o peixe”, presentes no livro didático Por uma vida melhor, do MEC, parece justificar toda uma sucessão de críticas à “equivocada” proposta. Bem, só parece.

Um levantamento rápido das críticas feitas pelos guardiões da última flor do Lácio inculta e bela prova, na verdade, uma posição hermética e acadêmica demais sobre o uso da língua portuguesa. Não é difícil encontrar termos qualitativos  como “forma errada“, “modo correto de se expressar” e “aprender certo“. Afirmações desse tipo enquadram equivocadamente o caráter dinâmico da língua e sua flexibilidade de se articular em diferentes contextos em um jogo de “certo ou errado”, de “uso bom” e “uso ruim”.

É evidente que não se deve sonegar a qualquer aluno o direito de aprender as construções e regras formais da língua portuguesa, uma vez que essas são a vertente empregada nas principais áreas da esfera social, sobretudo na modalidade escrita. Contudo, com a mesma ênfase que se ensina o modo formal e gramaticalmente esperado da língua, deve-se ensinar que não há certo ou errado nela, mas sim construções adequadas e inadequadas para cada situação e para cada interlocutor.

Estigmatizar as expressões menos formais da língua continuará parecendo uma tentativa de elitizar cada vez mais a norma culta e de torná-la instrumento de prestígio e de legitimação daqueles que a vomitam empregam – embora muita gente ainda confie no poder que essa tal de norma culta tem, não é mesmo desembargador Elpídio Donizetti Nunes?

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“O que mais gosto dela é o seu texto na língua pátria, porque, às vezes, é difícil achar servidores com essa condição”. Culpa da norma culta.

Paint e seus méritos

Talcott Parsons foi um sociólogo estadunidense e um dos representantes do pensamento estrutural-funcionalista. Seu pensamento é pautado na legitimidade da estratificação social baseada na meritocracia: em uma sociedade que (aparentemente) oferece as mesmas oportunidades a todos os indivíduos, estando esses inseridos nela sob as mesmas condições, deverão ocupar os papéis sociais mais elevados e prestigiados aqueles que se destacaram dos demais.

Dessa forma, para que o sistema funcione sem tensões, é necessário que as desigualdades sejam consideradas válidas pelos que ficaram penalizados ou obtiveram recompensas menores, na mesma proporção em que os beneficiados em razão de suas aptidões aceitem a posição que lhes efetivamente corresponda.

Para ilustrar o legado da meritocracia e a relevância do pensamento de Parsons, basta ver como a Wikipédia imortalizou o referido sociólogo:

um desenho feito no Paint: que grande o seu mérito, hein, Parsons!

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