(Des)Concursos

Saiu o edital para o Suplemento Literário de Minas Gerais!  http://br4.in/GQea7

Dica dos doutores e doutoras da Faculdade de Letras da UFMG.

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Pirandellismos

Você tenta compreender a  tensão entre o real, o verossímil e o fictício instituída no texto literário; você analisa os impasses entre a mímese aristotélica, a mímese platônica e  o conceito de imitatio a fim de confrontá-los com a definição de diegese, se valendo até mesmo dos estudos de Erich Auerbach e de René Girard  para obter maior respaldo teórico; você lê Seis personagens à procura de um autor, de Luigi Pirandello, de modo a não deixar passar nenhuma brecha que evidencie a  construção crítica do simulacro no jogo teatral e o rompimento das estruturas representacionais no palco à italiana; você faz tudo isso para, um dia, se deparar com a notícia abaixo e pensar:

– Foda-se.

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Afinal, “quem é melhor para representar eu a não ser eu mesma?, dizia a Enteada.” E quem melhor do que Geisy Arruda para promover um colapso em Pirandello?

Ainda é extraoficial mas, em função da notícia, alguns médiuns já afirmaram ter ouvido Brecht pedindo insistentemente para reconstruírem a quarta parede. E rápido.

Camisa 10¼

O jogador de futebol Ronaldinho Gaúcho e o técnico Vanderlei Luxemburgo  participaram da homenagem aos 110 anos de nascimento do escritor e torcedor rubro-negro José Lins do Rego. O presidente da Academia Brasileira de Letras, Marcos Vilaça,  recebeu das mãos do jogador uma camisa 10 do Flamengo personalizada com o nome do escritor.

Sobre a homenagem, é possível afirmar que:

a) ainda há esperança para a crítica genética, quiçá para a biográfica.
b) já prevejo algum ensaio do prof. Marcelino Rodrigues sobre o ocorrido.
c) em tempos de literatura comparada, um cotejamento sempre é bem-vindo.
d) a atitude foi louvável, ainda que Ronaldinho Gaúcho não soubesse citar uma obra sequer de José Lins do Rego.
e) quando homenagearem o escritor Lima Barreto, favor convidarem a profª. Haydée Ribeiro Coelho ao invés de algum jogador de futebol.

Do pathos (ou Freud explica)

O professor Sérgio Alcides deveria se precaver da iminente tentativa de homícidio enquadrado como crime passional.

 

Sérgio Alcides, se você está lendo isso, tenha cuidado. Para um assassino, não há artigo 28 do Código Penal Brasileiro – nem licença poética – que o impeçam de cumprir, digamos, os seus desígnios.

Tetzel quer saber

Johann Tetzel comprou uma edição de Dom Casmurro, de Machado de Assis, por R$5,00.


Agora Tetzel quer saber se dá um abraço ou uma voadora no dono da livraria que vende um livro desse por aquele preço.

O antiarco e a antilira

Quando Walter Benjamin afirmou que o jornal matou a literatura, acreditem, ele sabia muito bem o que estava falando. A prova definitiva? A reportagem do jornalista esportivo Régis Rösing sobre o retorno de Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo ao futebol brasileiro – ou, como chamamos carinhosamente, “como causar um infarto em Myriam Ávila em 10:57”:

A síntese de arranjos poéticos:
• emoção à flor da pele;
• como um leão enjaulado que se liberta;
• um lugar ao flash;
• soldado que presta continência ao alto comando do coração e é promovido a capitão, a capelão da nação;
• carinho até pro ar;
• tocou até piano – para depois tocar terror e desafinar os marcadores;
• o camisa 100 ficou sem palavras – infecundo jogo lúdico com as palavras que fez o já outrora citado padre Antonio Vieira ter uma síncope;
• o céu é o limite;
• em 04:16 – a prova de que clarividência não é artifício poético;
• ri, ri, rivaldo voltou – ponto. Basta.

Em suma: Régis Rösing cruzou o eixo sintagmático com o eixo paradigmático e atirou para todos os lados.

O saldo? Re-matou Roman Jakobson, Ezra Pound, Octávio Paz, padre Antônio Vieira e Walter Benjamin;de quebra fez Joseph Pulitzer se retorcer no túmulo, além de Freddy Mercury, que não gostou de ouvir como uma de suas músicas foi absurdamente associada à notícia – assim disseram os médiuns consultados.
Quase matou Myriam Ávila, Décio Pignatari, Antônio Cândido e Luiz Costa Lima.
Encheu de orgulho Pedro Bial.

Publicar em papel? Pra quê?

Reproduzimos aqui o instigante texto de Júlio Daio Borges, editor do site Digestivo Cultural. Embora datada de 2007(ano em que o texto que se segue foi ironicamente publicado no Suplemento Literário), sua perspectiva crítica acerca da relação entre mercado editorial, internet e público leitor – perpassada por uma abordagem sutilmente ácida, o que, para nós, já é algo familiar – soa absurdamente atual.

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Nove entre dez escrevinhadores que me aparecem, desejam, ardentemente, publicar em livro. Não sou editor de livros, sou editor de internet, mas pressinto que – na maioria dos casos – o meu site é visto como um ritual de passagem para finalmente, um dia, estrear em livro. Continua como uma das mais fortes ilusões, mesmo nos dias de hoje. Aqui, eu pretendo demonstrar, contudo, que publicar em livro pode ser – como aliás é, na maior parte das vezes – uma tremenda de uma fria. E por uma razNove entre dez escrevinhadores que me aparecem, desejam, ardentemente, publicar em livro. Não sou editor de livros, sou editor de internet, mas pressinto que – na maioria dos casos – o meu site é visto como um ritual de passagem para finalmente, um dia, estrear em livro. Continua como uma das mais fortes ilusões, mesmo nos dias de hoje. Aqui, eu pretendo demonstrar, contudo, que publicar em livro pode ser – como aliás é, na maior parte das vezes – uma tremenda de uma fria. E por uma razão bastante simples: muito do que se espera de um livro com o próprio nome na capa, a internet já oferece, de graça, para estreantes na arte da escrita.

É mais fácil, em termos de raciocínio – e para não dizerem que eu generalizo – tomar o meu caso, nos verdes anos em que eu ainda escrevia. Eu pegava um livro do Rubem Fonseca, por exemplo. Olhava a capa, virava, apalpava, apreciava a lombada. Naquela época – os anos 90 –, os livros da Companhia das Letras eram tão incomparavelmente mais bonitos que todo mundo queria publicar por ela. (Ainda querem, eu sei…) Eu escrevia mas, provavelmente, não queria fazer literatura – eu queria publicar. Ter meu nome nas estantes. Ir ao Jô Soares e impressionar o mesmo jovem da minha idade que, de repente, entrando numa livraria, se aventuraria a comprar um livro. Eu não sabia nada da vida dos escritores. Eu não tinha nenhuma noção de como funcionava o mercado editorial. Mas eu me achava bom, acreditava, claro, que merecia ser (re)conhecido – e publicar, então, era meu objetivo.

Os jovens escrevinhadores, de lá pra cá, não mudaram muito. A diferença é que, além do Rubem Fonseca, podem, agora, lamber com os olhos os livros de escritores estreantes – tão ruins ou piores do que seu potencial público leitor. De modo que é bastante freqüente a pergunta: “Se até esse sujeito publica, por que eu não posso (também publicar)?”. Pode. Não custa tão caro; algumas editoras até se dispõem a fazê-lo… (traindo, naturalmente, sua função primordial de “editar”). A questão é que, depois de publicar, não acontece nada. Não acontece nada do que você, jovem escrevinhador, imaginava que fosse acontecer. Pergunte para os blogueiros-escritores. Eles estão disponíveis aí na internet, no e-mail. Os livros fizeram deles, autores, mais conhecidos do que já eram com seus blogs? A resposta é: não. A resposta é: existem, atualmente, blogueiros mais famosos do que autores de livros lançados aos montes no mercado editorial.

Vamos agora ver onde está o erro de quem almeja publicar em livro. Em primeiro lugar – apesar da quantidade de livros de novatos que você encontra –, o autor novo é considerado um “mico” pelos profissionais do mercado. Pergunte a qualquer agente literário. Pergunte a qualquer livreiro. Autores novos chegam semi-analfabetos, com seus originais, às editoras; algumas os lançam mas, depois, não conseguem nem distribuir; afinal, ninguém os conhece, nenhuma livraria quer… E é igual na mídia: neste mundo de autores de best-sellers que publicam todo ano (nacionais e estrangeiros), e das reedições infinitas (e traduções novas – a moda agora são os autores russos), não sobra espaço para a divulgação de estreantes. E os livros deles são ruins! Muito comumente, os autores pagam para publicar – e o editor termina por se eximir da sua única obrigação (editar, mais uma vez). “O leitor que julgue”, dizem. Coitado do leitor: tem de arcar com quase todo o prejuízo sozinho.

Seguindo essa cadeia de premissas: o dono da livraria não pega para vender (porque sabe que não vende), então ninguém vê exposto, portanto ninguém compra; o jornalista não pega para ler (porque, quando tenta, estatisticamente, não consegue avançar), assim ninguém fica sabendo e, de novo, ninguém compra. Resultado: o autor estreante não alcança seus potenciais leitores; termina menos conhecido – e, com certeza, mais pobre – do que antes. Ah, eu sei: você pode ter uma idéia genial, que ninguém ainda teve; convencer, ao mesmo tempo, o editor, o livreiro, o divulgador e o leitor. E vai ser, óbvio, um sucesso estrondoso. Mas você se esqueceu? Você é um autor novo! Para todos os efeitos, ninguém vai olhar para a sua cara. Os editores estão cansados dos originais sem qualidade que recebem de desconhecidos todos os dias; os livreiros estão escaldados por ter de pagar a conta das pequenas editoras falidas; o resenhista não tem mais paciência para as primeiras páginas que não o convencem da leitura; e os leitores, por causa de tudo isso, não vão chegar a saber que você existe (você e seu livro).

Qual a solução? Se matar? Não, ainda… Desde os anos 90, existe um negócio chamado internet (não sei se você sabe…). E desde os anos 2000, ou desde antes, existe um negócio chamado blog. O autor, qual seja, não precisa mais esperar por um editor, para ter seus escritos publicados. Nem precisa de alguém para distribuir, para divulgar. Só precisa ter leitores; ou seja, como qualquer escritor (publicado ou não), precisa ir conquistando leitores aos poucos. E esse é hoje o verdadeiro teste para dizer se um autor é bom ou não (se quiserem, publicável ou não): a audiência on-line. Na internet, no blog, ninguém está olhando para a embalagem que envolve seus escritos; ninguém está ligando para o local onde sua obra foi exposta. Se você for bom, você vai ter leitores, ponto. (Que é o que interessa, no final das contas.)

Mais uma coisinha: os leitores da internet, os leitores de hoje, não estão acostumados a ler “contos”, “novelas”, “romances” (seja menos pretensioso…). Os internautas – o grosso do potencial público leitor – estão voltando a ler aos poucos. Então não me venha com contos que “experimentam” com a linguagem, nem com romances desestruturados e com centenas de páginas. Escreva para a internet; a internet é o grande laboratório hoje. E os feedbacks vêm na hora: você não tem de esperar o leitor se convencer a procurar o livro, comprar, ler inteiro, para, só assim, gostar ou não. É muito difícil, custa dinheiro e – vamos admitir – você é um autor novo: você ainda não é suficientemente importante para ele, leitor, a ponto de justificar todo esse dispêndio de energia e tempo. Seja franco: você compraria um livro de um autor desconhecido? E, se ganhasse de presente, você leria? Não tenha vergonha de admitir, eu também não faria nenhuma das duas coisas em princípio. Agora se me mandassem um link para um blog, – como você – eu leria. São muitos blogs, sim, mas eu tento ler. Agora, os livros…

Conheço um blogueiro que é muito mais conhecido do que seus livros de títulos horríveis. E ele é um blogueiro tão bom – tão, assustadoramente, bom – que ninguém tem coragem de dizer para ele que os seus livros são ruins. Então ele insiste; e, de tempos em tempos, anuncia que vai largar esse negócio de blog, que ele não quer envelhecer blogando, que ele é, acima de tudo, um escritor (!). Evidentemente, não garanto que, se você for um blogueiro competente, você vá publicar, como quer, um livro em papel. Mas vai ficar mais perto do que as pessoas querem ler hoje; não vai ter de esperar anos, ou a vida inteira até, para constatar que seus livros são uma porcaria. Ambições literárias são saudáveis para quem escreve, mas publicar um livro não pode ser o único fim hoje. Publicar, como diz o clichê, é tornar público – e, nesse sentido, a internet vai muito mais longe do que o livro. Pense nisso.

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