Exegese Financeira

Muito se tem comentado – e não é de hoje – do enriquecimento ilícito charlatanismo má fé aconselhamento teológico sobre o dízimo e as ofertas nas igrejas evangélicas. Seja por meio da vassoura ungida, da fronha abençoada, da pulserinha de Jeová Jiré, da água do rio Jordão ou, em uma proposta que difere desses novos tipos de indulgência, vulgarmente chamada de “fé materializada”, na campanha para atingir um milhão de reais de almas, todos os que desconhecem os verdadeiros princípios bíblicos sobre a lei da semeadura e da colheita  insistem em dizer que tudo isso não passa de oportunismo. E dos grandes.

 

No entanto, para desespero dos anti-IURD, dos antivaldomirosantos e dos antimikemurdock, existe uma lógica nas Sagradas Escrituras, digna de um silogismo vieiriano, que sustenta toda essa lavagem de dinheiro exploração puta falta de sacanagem cristã prática dizimista. Acompanhemos:

Exegese 1

 

Sabendo que o céu é o lugar dos tesouros, o bom Jesus nos aconselha:

Exegese 2

 

Logo, se o céu é o lugar dos tesouros, e prioritariamente o primeiro a ser buscado, como de fato é a Nova Jerusalém e o  que devemos desejar do Reino de Deus que nos é prometido?

Exegese 3

 

Entenderam? Não há nada mais cristão do que enriquecer aqui e antecipar o Reino de Deus na terra. Fazendo o câmbio divino, é só trocar o correspondente em jaspe, safira, calcedônia e esmeralda por grandes fazendas, aviões particulares, carros luxuosos e/ou templos megalomaníacos (ainda que, por enquanto, só os pastores usufruam disso – afinal, o leite e o mel de Canaã não são para todo mundo).

 

Taí uma verdade bíblica inquestionável, quase tão válida quanto a profecia do dá ou desce.

Palavra da salvação.

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Essa tal de norma culta

A gangue pasqualecipronetista e todos os demais puristas de plantão talvez nunca estiveram tão alvoroçados. O simples fato de ouvirem frases como “os livro ilustrado mais interessante estão emprestado” ou “nós pega o peixe”, presentes no livro didático Por uma vida melhor, do MEC, parece justificar toda uma sucessão de críticas à “equivocada” proposta. Bem, só parece.

Um levantamento rápido das críticas feitas pelos guardiões da última flor do Lácio inculta e bela prova, na verdade, uma posição hermética e acadêmica demais sobre o uso da língua portuguesa. Não é difícil encontrar termos qualitativos  como “forma errada“, “modo correto de se expressar” e “aprender certo“. Afirmações desse tipo enquadram equivocadamente o caráter dinâmico da língua e sua flexibilidade de se articular em diferentes contextos em um jogo de “certo ou errado”, de “uso bom” e “uso ruim”.

É evidente que não se deve sonegar a qualquer aluno o direito de aprender as construções e regras formais da língua portuguesa, uma vez que essas são a vertente empregada nas principais áreas da esfera social, sobretudo na modalidade escrita. Contudo, com a mesma ênfase que se ensina o modo formal e gramaticalmente esperado da língua, deve-se ensinar que não há certo ou errado nela, mas sim construções adequadas e inadequadas para cada situação e para cada interlocutor.

Estigmatizar as expressões menos formais da língua continuará parecendo uma tentativa de elitizar cada vez mais a norma culta e de torná-la instrumento de prestígio e de legitimação daqueles que a vomitam empregam – embora muita gente ainda confie no poder que essa tal de norma culta tem, não é mesmo desembargador Elpídio Donizetti Nunes?

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“O que mais gosto dela é o seu texto na língua pátria, porque, às vezes, é difícil achar servidores com essa condição”. Culpa da norma culta.

Da alteridade

ou “como identificar um Bolsonaro em potencial através de propostas sócio-pedagógicas em sala de aula”:

Eu não sou contra nem a favor, muito pelo contrário (sic), mas que algumas pessoas deveriam morrer para sempre da vida eterna (sic)…

#penitências

Nada melhor do que o início da quaresma para levar aos corações cristãos um pouco de desapego e de renúncia a, digamos, certas vaidades:

Quem vê rápido pensa que é um flyer de alguma festa da Up. Indício de desengano, diria padre Antônio Vieira – o que já seria um bom sinal.

Créditos para Felipe Tofani, uma dessas mentes interessantes que existem por aí. Conheça e aprecie o trabalho dele.

Do Egito que não existe em nós

Egito: há mais de uma semana, manifestantes exigem a saída do presidente Hosni Mubarack. Seguindo os exemplos dos tunisianos, os egípcios se queixam do desemprego, da corrupção e do autoritarismo, reflexos da presença de Mubarack no poder por trinta anos. A série de levantes, até então concentrada no Egito, se espalhou por todo o norte da África e Arábia Saudita, sendo então já considerada como uma revolução árabe.

Brasil: com 70 votos – dos 81 possíveis – José Sarney é reeleito presidente do Senado pela quarta vez. Por um lapso de memória, todos se esqueceram de quem foi o epicentro dos escândalos dos atos secretos, noticiados em 2009. A mobilização social acerca desse fato político é expressivamente nula.

E se… I

E se as escolas de samba do Rio de Janeiro cancelassem o carnaval deste ano em sinal de luto às vítimas das enchentes?
Oremos.

Lúcido provérbio ouvido em um ônibus, vulgo palco da vida.

E se… II

E se o hit do verão, ao invés disto:

fosse isto:

?
Reflitemos.