Essa tal de norma culta

A gangue pasqualecipronetista e todos os demais puristas de plantão talvez nunca estiveram tão alvoroçados. O simples fato de ouvirem frases como “os livro ilustrado mais interessante estão emprestado” ou “nós pega o peixe”, presentes no livro didático Por uma vida melhor, do MEC, parece justificar toda uma sucessão de críticas à “equivocada” proposta. Bem, só parece.

Um levantamento rápido das críticas feitas pelos guardiões da última flor do Lácio inculta e bela prova, na verdade, uma posição hermética e acadêmica demais sobre o uso da língua portuguesa. Não é difícil encontrar termos qualitativos  como “forma errada“, “modo correto de se expressar” e “aprender certo“. Afirmações desse tipo enquadram equivocadamente o caráter dinâmico da língua e sua flexibilidade de se articular em diferentes contextos em um jogo de “certo ou errado”, de “uso bom” e “uso ruim”.

É evidente que não se deve sonegar a qualquer aluno o direito de aprender as construções e regras formais da língua portuguesa, uma vez que essas são a vertente empregada nas principais áreas da esfera social, sobretudo na modalidade escrita. Contudo, com a mesma ênfase que se ensina o modo formal e gramaticalmente esperado da língua, deve-se ensinar que não há certo ou errado nela, mas sim construções adequadas e inadequadas para cada situação e para cada interlocutor.

Estigmatizar as expressões menos formais da língua continuará parecendo uma tentativa de elitizar cada vez mais a norma culta e de torná-la instrumento de prestígio e de legitimação daqueles que a vomitam empregam – embora muita gente ainda confie no poder que essa tal de norma culta tem, não é mesmo desembargador Elpídio Donizetti Nunes?

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“O que mais gosto dela é o seu texto na língua pátria, porque, às vezes, é difícil achar servidores com essa condição”. Culpa da norma culta.

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